E se a Terra parasse de rodar ?

A Terra é um planeta. Se fosse possível pesá-la em um lugar sob a mesma gravidade que experimentamos neste insigne planetinha, chegaríamos ao estonteante número de 6 x 1024 kg. Expresso assim, o valor não causa comoções. Mas traduzindo a multiplicação, o valor total orçaria comoventes e respeitáveis, à luz da insignificância humana, seis sextilhões de toneladas (!). Mas a Terra, no vácuo espacial, não tem peso, não pende para lado nenhum que não seja o orientado por forças gravitacionais que interagem com o globo.

O peso todo é coisa de respeito, evidentemente, se a medida for a curta ambição humana, que esforça-se para romper 2 metros de altura e nos comovemos com nossos semelhantes mais rotundos, que alcançam mais de uma centena de quilos (100 quilos é 0,1 tonelada. Considere aí, por si mesmo, quando pesaria nas costas de uma divindade, esta Terra).

Assustador é pensar que essa massa toda roda. E roda também a uma velocidade considerável, sempre tendo-se em vista os limites humanos. Giramos em torno de nós mesmos a 1.600 km/h (no equador). São 465 metros por segundo. É mais rápido que o som, por exemplo, que se propaga a 1.200 km/h.

Seis sextilhões de toneladas, rodando a 1.600 km/h gera uma quantidade de movimento enorme. O que aconteceria se, de repente, a Terra parasse de girar?

Física. Leis de Newton. Inércia. Aconteceria o que acontece quando um movimento é interrompido bruscamente. Se você se empolga e empurra o pedal do acelerador lá embaixo e, num instante, é surpreendido por algum obstáculo inesperado, ou pelo sinal que fecha de repente e precisa brecar bruscamente, sabe o que a inércia faz. O corpo que se movia conserva em si a teimosa tendência de continuar como está. Se a Terra parasse intantâneamente de rodar, eu, a revista, você, o sofá, o prédio, o avião, o ar que nos rodeia, tudo, enfim, sairíamos voando a 1.600 km/h, no sentido da rotação da Terra, de leste a oeste.

O resultado imediato seria o caos total. Ventos alcançariam velocidades superiores ao som, e fariam nossos maiores furacões parecerem brisas de verão. As águas que não evaporassem por um processo descrito logo mais, também se moveriam e ondas gigantescas assolariam o planeta. A devastação das águas continuaria conforme a água fosse se acomodando no leito de rios e oceanos, como num balde chutado, indo e voltando, lavando e destruindo tudo no caminho. Além disso, outra contingência potencialmente destrutiva seria o efeito da liberação de enorme quantidade de energia de atrito rotativo acumulada.

Para entender o atrito, vamos usar o modelo de um disco de freio de um automóvel. Quando você freia, as pinças mordem o disco e produzem a frenagem. Esse atrito das pastilhas de freio com o disco gera calor. Quando a roda estaca definitivamente, se você puser o dedo no disco, sentirá o efeito do atrito rotacional armazenado: calor, o disco estará fervendo.

O mesmo acontece com a Terra, atritando com a atmosfera. Se parassemos instantâneamente, toda a energia seria convertida em calor num instante. O resultado? Rochas derreteriam. A vida seria, basicamente, pulverizada da face do planeta. O asfalto das ruas ficaria derretido e bem pouca coisa sobreviveria para contar a história do dia em que a Terra parou

Ao menos no mundo macrobiológico, a extinção beiraria a totalidade das criaturas. E os pouquíssimos sobreviventes, em espasmos de sorte e acaso difíceis de imaginar, teriam que lidar com o caos imediato e com uma situação ambiental extrema, patrocinada pela cessão de movimento: dias de seis meses.

O que dá a alternância entre dia e noite no nosso cotidiano é a rotação da Terra. Se ela para, significa que uma mesma face do planeta ficará votada para o Sol durante meio ano. De um lado noite, de outro dia, por seis meses. A circunstância, além de desagradável, geraria condições ambientais extremas: frio demais no escuro, quente demais no dia.

As massas de ar aquecidas no lado em que fosse dia teriam interação com as massas de ar frio do outro lado. E isso geraria ventos, tempestades tremendas e com enorme duração. A vida na Terra se tornaria muito cruel para os que sobrevivessem.

É possível? Uma parada brusca na rotação da Terra é um evento físico possível, mas bastante improvável. Possível porque o que está em jogo é uma força, e para anular uma força, você só precisa de outra. Haveria a necessidade de alguma força surgir com capacidade de anular a tendência da Terra girar. Essa força poderia ser o puxão gravitacional de alguma estrela vagante – sim, essas coisas bizarras existem – ou um impacto, em sentido contrário ao do movimento leste/oeste, que caracteriza a rotação terrestre, e que igualasse o deslocamento rotacional do planeta. Tendo uma dessas condições, mensuráveis em possibilidades muito remotas, na escala de um pentelhésimo a cada buzilhão, aí sim, a Terra poderia parar de girar. E a gente de viver.

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